"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." [M.S.T.]

15.7.09

3.
A Maria Eduarda acabou de me ligar. A perguntar se eu estava bem. Porque é que eu deveria estar mal? Convenhamos que ver o Afonso, pensar no Afonso, falar com e do Afonso não me faz lá muito bem ao juízo, melhor dizendo, ao coração. Mas agora eu tenho o Tomás e estou feliz. Infinitamente feliz.
Felicidade. Amor. Paixão. Cumplicidade. Palavras que eu vejo associadas ao Afonso. Ao meu Afonso. Ao príncipe que virou sapo. À pessoa que mais me fez sofrer. Rectifico, me faz sofrer. Até hoje. Para sempre.
Conheci-o tinha eu quinze anos. Ele era mais velho e as minhas amigas suspiravam todas por ele. Enlouqueciam, matavam-se umas às outras só para ter a possibilidade de estar a dois metros de distância. Eu não. Achava-o um pouco presunçoso, frio demais, um narcisista metido a galã de novela das nove. E os amigos então… um bando de miúdos que já se achavam uns homens, com cara de gafanhotos e voz de cana rachada, que passavam o tempo a tentar conquistar raparigas mais velhas e a gozar sarcasticamente com as mais novas. Uns completos idiotas, excluindo o Gui. Não sei como o Afonso os suportava!
Um dia, tinha eu entrado em crise – desde de pequena que isto me acontece – e resolvi ir para o cais, junto ao rio. O rio que me ligará eternamente ao oceano de amor que sinto e sentirei pelo Afonso. O nosso rio. Precisava de o inundar de lágrimas para ver se matava a angústia que me apertava o peito e parecia me consumir de dor e emoção. E ele apareceu. Como surgido do nada. Como se tivesse nascido naquele momento para me fazer renascer a mim também. Como se o destino o tivesse conduzido até àquele lugar.
Duas palavras bastaram para que eu me apaixonasse. "Por aqui?". Não foi propriamente amor à primeira vista, mas eu digo sempre à Eduarda que sim. Afinal, foi a primeira vez que eu estive frente-a-frente, coração-a-coração com um Afonso que era tudo menos excêntrico e egoísta.
Ele sentou-se ao meu lado. Emprestou-me a sua alma para que eu pudesse enxugar as lágrimas doces e apaixonadas. Conheci e apaixonei-me por um Afonso que nunca ninguém descobriu. Só eu, num fim de tarde de Junho, à beira de um rio que parecia abraçar o sol, perto de um homem que me secou as lágrimas, para mais tarde as fazer brotar. Com mais intensidade. Com mais sofrimento. Sem que nada o fizesse prever. Sem que eu pudesse compreender porquê. Abri-lhe o meu coração como se fosse um livro, mostrei-lhe a minha vida como se fosse uma exposição de pintura de Arte Nova, contei-lhe os meus segredos como se fossem pérolas ostracizadas no fundo do mar. E amei-o. Como nunca vou conseguir amar ninguém. Ele foi o primeiro e será o único homem da minha vida. Porque ninguém nunca apagará a nossa história, a minha vida. Nem o tempo. Nem a morte. Muito menos a eternidade.
Amar o Afonso foi incrível, continua-lo a amar é terrível. Depois de tudo o que aconteceu. Depois de ele se ter afundado no meu coração e de lá nunca mais poder sair. Depois de lhe ter oferecido a minha alma e de ele me ter dado a rejeição e a distância sentimental que eu não merecia. As quais o Tomás também não merece. O Tomás. Ama-me. Diz ele. E eu tenho de tentar ama-lo também. Vou ter de corresponder a esse amor que surgiu do nada e que agora é tudo o que tenho.
O Afonso? Continuará a ser uma amarga e quente lembrança do amor que construí. Por cima de tristeza, de negação, de alicerces frágeis e deteriorados. Por cima de um sentimento único que o Afonso jamais compreenderá. Nem homem nenhum. Amar só os fortes e corajosos conseguem. Fugir do amor apenas os fracos têm capacidade. Pois têm medo. Medo de serem felizes.
Quando era pequena amava as Barbies, os Power Rangers, e uma boneca gorducha e fofa que adormecia ao meu lado todas as noites. Dizem os especialistas que gostámos mais das coisas que interagem connosco frequentemente. Mas eu não acredito. Amamos, sim, as pessoas que estão mais afastadas de nós, que nos ignoram e maltratam. Amamos as coisas que não possuímos e detestamo-las quando se tornam fáceis de alcançar. Demasiadamente acessíveis. Há um prazer enorme em acolher o proibido, em dialogar com o que está irremediavelmente longe. Muito longe. Aprendi isto depois de conhecer o Afonso. Depois de o ter perdido é que o meu amor se tornou ainda mais intenso. Ainda mais insuportável. Ainda mais insuperável.
O Tomás é um querido. Mas eu já o tenho. Já o possuo. Não há mais nada a fazer. Acabou o prazer da conquista. Acabaram os segredos e os sorrisos sedutores. Acabou nele a água de que eu precisava para continuar a viver. A banalidade bateu à porta, mas eu não a quero deixar já entrar. O Tomás ainda não pode ir embora. Preciso dele mais do que nunca, por isso, vou lutar e fazer com que o nosso namoro se fortifique com o carinho e a doçura dos seus olhos. Pode não ser igual ao Afonso, mas está comigo quando preciso. Não vai fugir nunca. Ele é meu e vou quere-lo sempre ao meu lado. Mesmo quando tiver de sair do meu mundo. Não é que ele seja pequenino. O problema é que eu o construí quando estava com o Afonso, e homem nenhum cabe nestes moldes. O Tomás tem-se aguentado, mas talvez por pouco tempo. Com ou sem rotina. Por mais repetitivos que sejam os gestos, as palavras, tudo vale mais que o silêncio. E eu não suporto a solidão. Não é que vá ficar sozinha. Sei que a super protecção da Maria Eduarda, o fascínio do Gui, a sensibilidade da Bia e a tranquilidade do meu velho e justo amigo Francisco me irão acompanhar eternamente. Até ao fim do interminável. Até sempre.
A amizade não é frágil e insegura como o amor. Ela não depende de dois corpos nem de duas almas. Apenas de um coração vigoroso ou solitário, estimado ou incompetente, morto ou imprevisível, espirituoso ou desemparelhado.

 
 

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