"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." [M.S.T.]

22.8.09

11.
O aeroporto é um lugar fantástico. Sempre o achei. Desde criança. Gente que parte e que chega. Sorrisos, lágrimas, emoção. Tudo se esquece e de tudo nos lembramos. Do passado e do futuro. Do sol e da chuva. Dos dias cinzentos e dos mais brilhantes.
Sofro em silêncio. Tento esconder a fragilidade da minha alma por detrás de um sorriso verdadeiro mas esforçado.
A cumplicidade das pessoas que amo, a saudade que sei que vou sentir, as recordações dos bons e dos piores momentos da minha vida, a amargura das histórias que não tiveram fim, das que o fim foi muito rápido e das que o fim foi o princípio. As coisas que tinha para dar e as que dei, o quotidiano adverso e a adversidade de uma vida de amor dedicado e negro. A insegurança e a fuga. A derrota aliada à vitória de um amor sem fim. O Afonso. A Bia. A Maria Eduarda. O Francisco.
Sei que tudo vai ficar para trás. Que o sonho acaba onde um novo começa. Começo. De vida. De encontros. De caminhos. De solidão.
Sinto-me como numa montanha russa. A adrenalina a subir. A vida ao contrário. Tudo desordenado. Desconcertado. Desconectado. Um mundo assimétrico ergue-se perante o meu olhar resignado e desesperado. Conseguirei viver o confronto das diferenças leais e frenéticas que irei encontrar?
Sou forte e não choro.
Despedi-me ontem do Francisco. Não foi bem uma despedida, mas o nosso último jantar da semana. Do mês. Do ano. Da eternidade. Preferia não pensar assim, mas não sei se voltarei mais a Portugal. O Francisco não suporta a palavra "adeus", por isso, disse-lhe "até sempre". Ele não veio até ao aeroporto. O meu amigo. Tinha tantas coisas para lhe dizer. Tanto a agradecer-lhe. O meu espelho. As imagens meigas da realidade de uma amizade que voa para além do tempo, da vida, da existência inimiga e comprada. Um amor sincero e sossegado, duradouro e especial. Um casamento de corações e de partilha.
A Bia. A ingenuidade de alguém que só ama um homem e que é feliz escondida nos enfeites da sombra de uma amiga que não a soube amar. Ou que a amou mal. Um dia, ela vai mostrar-se e revelar-se uma mulher forte, um tesouro que ela esconde numa caverna que pulsa de desejo e de ambição. Tenho total certeza.
A Maria Eduarda. A minha prima. A minha segurança. O meu suporte. Devo-lhe a vida. Devo-lhe o que sou hoje de bom. As qualidades que ela esculpiu e os defeitos que não conseguiu esfumar. Devo-lhe tudo. Ela não me deve nada. Absolutamente, nada. Por vezes, parecia-me que vivia em função de mim. Que eu era a sua vida. E eu não lhe dei nada mais que preocupações e insónias. A partir de agora o Gui e ela vão finalmente encontrar a tranquilidade que a relação deles necessita.
O Tomás. Não lhe disse que ia para o Brasil hoje. Não queria um escândalo. Ultimamente ele tornou-se compulsivo, agressivo. Espero que encontre alguém que o saiba amar como ele merece. Eu só amo o meu príncipe tenha ele mil defeitos e nenhuma virtude.
O Afonso… o meu Afonso… Perdoa-me esta fuga, mas viver na mesma cidade, no mesmo país, no mesmo planeta e não poder tocar-te é doloroso demais. Sei que jamais irei esquecer-te, que a distância não mudará em nada o que sinto por ti, mas preciso mesmo de ir. Preciso de ludibriar este amor florbélico e extremo que alimentei com a esperança dispersa de um (im)possível sinal teu. Amo-te. Nunca te disse isto com a maturidade necessária e credível de hoje. Nunca mais dissemos nada um ao outro. Foi como se a nossa história não tivesse existido. Nem para mim, muito menos para ti. Amo-te num silêncio que me esquarteja e deprime. Amo-te com a certeza de que tudo é um erro, de que foste um erro. Um erro que eu acarinho e alimento. ‘My favourite mistake’. Não por necessidade, mas pela vontade de sentir algo sublime. Mais forte que a natureza, mais seguro que a morte, mais certo que o amanhã. O amor. O meu amor. Tu. Afonso. Príncipe salvador de sonhos e encantador de corações, protege o que sinto por ti. Guarda para sempre as recordações de uma história que tinha tudo para dar certo e que não deu em nada. Voa até mim e sente o meu espírito saudoso pulsar de sofrimento, de amargura, de incerteza, de angústia, de medo…
E o avião parte. As asas do meu coração abrem-se e acolhem-te num leito de ternura e magia. Tudo vai ficando para trás sem que eu nada possa fazer. Vou embora da tua vida. Da minha vida. Da casa confortável que me protegeu e materializou. O teu coração. A minha alma pairará sobre ti intemporalmente. Sobre Portugal. Sobre tudo o que fui e que ai vivi. Tudo o que jamais irei voltar a viver.
 
 
 

21.8.09

10. 
A Eva vai para o Brasil. A minha Eva. O meu segredo. Ouvi – por acaso, claro está – a Maria Eduarda comentar soluçante que a Eva ia partir. Para um lugar distante onde eu sempre desejei que ela fosse morar. Mas agora, quando esse momento chegou, não penso assim. A Eva longe… do meu coração, da minha vida, da maledicência estimulante de mim e do que sinto por ela. Silenciosamente.
Silêncio. Sem a Sofia por perto. Não percebo o que me leva a aguenta-la. Talvez seja apenas o facto de saber que a tenho a qualquer hora, que ela estará sempre por perto. Como se o meu perfume exalasse fortuna e conforto. Aposto que se eu não tivesse uma bela conta bancária, a Sofia já tinha partido, melhor dizendo, nunca haveria atracado.
Eu aqui a falar da Sofia, no momento em que a minha Borboleta vai voar para outro mundo, para um mundo onde não a imagino. Ela faz parte apenas do meu, mesmo não o sabendo. Nunca tive coragem para lho dizer. E não vai ser agora que o vou fazer. "Eva, nunca deixei de te amar. Passei estes nove anos contigo balançando nos meus mais ínfimos segredos. Amo-te." Aposto que ia ter um ataque de riso. Ou ia achar que eu estava bêbedo. Depois de tantos anos ainda gosto dela. Ia chamar-me louco, obcecado, anormal. E, por sinal, é mesmo isso que eu sou. Um medroso que não tem capacidade para exprimir o que sente, mesmo que esse sentimento me magoe e queime, deixando feridas incicatrizáveis.
Gosto da forma tímida e intimidante da Eva. Amo-lhe o carácter indomado e carente. O caixão que comprei e onde não a consigo sepultar. O sorriso inocente que a pinta de rosa e me inebria de jasmim. De alecrim. De alegria. De desconcertação. De compaixão de mim. Pobre Eu.
Para o meu bem deveria deixa-la partir. Da minha vida, não de Portugal. Eu nunca chorei por causa de nada e choro agora pela minha Eva. Ignoro as lágrimas como camuflei todos estes anos o meu amor. E vou sofrendo. Pensei que chorar nos fazia sentir menos homens. Mas não. Sinto-me mais forte. Mais tranquilo. Mais leve. Percebo finalmente o que leva as mulheres a chorarem tanto e tão bem. Choro enquanto sorriu. Ou sorriu enquanto choro. E encanto-me. Pela arte de chorar. Pela descompressão e pela saudade que irei sentir da Eva. Eu não quero continuar a fugir do amor. Não quero mesmo. Tinha medo de chorar e aprendi a fazê-lo. Amar a Eva sem receios nem falhas será o próximo passo. Um encontro branco, irrepetível, de um silêncio leve e pacifista. Paz. Sinto-a a inundar-me, a fazer-me cócegas, a abraçar-me carinhosamente. Como eu abraço a Eva todas as noites. Na Primavera e no Outono. No Inverno e no Verão. Em frente à lareira aconchegante que me fascina e acolhe. Ou olhando a lua, em pleno Alentejo, numa noite brilhante e deliciosamente sonorizada pelos animais testemunhos de um amor secreto e borbulhante. O meu amor pela Eva. Desejo-a desde que os meus olhos afloraram os dela de uma maneira sorridente, sussurrante e compatível. Como eu te amo Borboleta. Como poderei eu amar-te tanto, querida? Meu anjo intermitente e macio. Meu anjo ingénuo e indomável. Meu anjo.
A segurança de que me gabo e me enxaguo de nada me vale diante de ti. Nada me anima. Tudo me esmaga, ameaça e insulta. Tudo, Borboleta colorida.

20.8.09

19.8.09

' Oh God, make me good,
but not yet!




"...things don't have to be extraordinary to be beautiful. The ordinary could be just as beautiful."

[Wicker Park]

18.8.09



Muito mais que silêncio.

17.8.09

Tenho saudades de Abril e de cada flor ser uma esperança.

15.8.09

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

[José Saramago]

10.8.09

Naquela última noite, encostei-me a ti e abracei-te. Não havia razão para não o fazer.
Aprendemos nessa noite a partilhar o silêncio. Acho que era isso que o destino nos tinha proposto. Atingimos o objectivo da nossa vida. Pelo menos o daquela que tivemos em conjunto. Partilhando o silêncio descobrimos o nosso destino.
Nessa noite o teu corpo pareceu-me um deserto. Apenas abracei-te. Protegi-te de mim. Abracei-te. Nessa última noite, o teu corpo era um deserto que já não pedia água. Não havia mais nada para te dar, para me dares. Partilhámos o silêncio. E essa foi a maior descoberta que fizemos em 21 anos.
Naquela última noite, adormeci abraçada a ti. Adormeci tranquilamente. Dormi. E esse foi o maior sinal que o objectivo estava cumprido, que na manhã seguinte diríamos adeus. Para sempre. Mesmo que, para sempre, as minhas mãos me gritassem que tinham saudades tuas.

9.8.09



Acreditar deixou de ser apenas um verbo fácil de conjugar.
Acreditar será a energia que nos move. Que nos moverá. Sempre.
Acreditar é a semente da flor mais perfeita, que nascerá no Outono. Acredita!
Acreditar é dizer que o céu é azul. Mesmo que chova. O céu é azul.
Ele ensinou-me tudo isto. Ele diz que acreditar é tudo.


Acreditar deixou de ser apenas um verbo fácil de conjugar.
"Façam o favor de ser felizes..."
[R.Solnado]

8.8.09

Na tua praia, na praia que foi nossa naquela semana, na praia que silenciou para sempre o tilintar do nosso amor.


Na tua praia.
E assim vais tu, na busca da leveza, com a certeza de que a felicidade é difícil de imaginar, mas fácil de encontrar...

6.8.09

As minhas mãos têm saudades tuas.

.

"Percebeu que ela tem a escolha de deixar de o amar ou fazê-lo ir ao seu encontro.
- E é isso que ela está a fazer."

O passado é uma história sem futuro. E o futuro? O futuro é uma história muito mal contada.

4.8.09

Parece que já chegaram.

Hoje Sagres foi o limite mas não será o fim...

3.8.09

Tenho saudades de quando falávamos de tudo menos de amor, porque amávamos sem ter de falar sobre o assunto.

2.8.09

9.
O meu nome é Beatriz. A Eva e o Bernardo são os únicos que me tratam por Bia. Não é que eu não goste, só não aprecio muito diminutivos. Para nos sentirmos inferiores e diminuídos já bastam as rasteiras da sociedade precária e limitadora que se foi construindo – ou degradando – sem que quase nada pudesse ser feito. No entanto, não me posso queixar muito. Tenho uma "vida formidável" como a Eva adora dizer. Mas tudo depende do ponto de vista ou dos olhos com que vemos. Não sou rica como ela, mas tenho uma profissão que amo mais do que qualquer outra coisa. Desde pequena que quis ser Educadora de Infância e não há nada que me dê mais prazer que cuidar das minhas crianças. Namoro há onze anos com o Bernardo e nunca tivemos uma discussão. Nem grande, nem pequena. O Bernardo também ama o que faz. É aquele tipo de médico sensível e dedicado que adora salvar vidas e não pensa muito na sua. Esquece-se várias vezes do das nossas ‘datas importantes’, mas eu compreendo-o. Ele trabalha muito mas eu sei que me ama. É isso que importa. Mesmo quando diz que vem jantar a minha casa e eu preparo algo especial e depois fico à sua espera até às duas da manhã sem um telefonema nem uma satisfação, está tudo bem.
Amo o Bernardo de uma maneira especial. Sem necessidade de retribuição. Sem obtenção de reciprocidade. Amo-o com carinho, sem pedidos nem ordens.
Aprendi a ser feliz com a simplicidade dos sentimentos que se misturam com a pureza das nossas vidas em separado mas comuns. E tem dado resultado.
Nunca lhe cobrei os minutos, nem as horas, nem os dias de espera. E esperei sempre. Com um sorriso nos lábios e outro no coração.
Quando se ama alguém como eu amo o Bernardo, perdoa-se tudo. A ausência ou o esquecimento, a leveza ou desencantação, a perda ou a saudade sem nome. A Eva não ama assim. O amor dela é insano. Ama mais com a cabeça do que com o coração. Ama este e aquele, ama o mundo e o Afonso. Ela é muito complicada, mas eu invejo a emoção e a dinâmica da vida que leva. Apaixona-se e desapaixona-se instantaneamente. Sai das relações magoada, mas depressa se cura. Vive a vida até ao limite e nunca atinge os limites da vida. Quando vamos as duas na rua eu torno-me invisível. Ela suga a beleza das outras pessoas com o seu porte aristocrático de bailarina celeste, com os olhos cor de céu, de esperança, de terra, de mel. Com o sorriso triste e doce que esboça numa pintura que a amplifica e me devora. Mas eu gosto muito dela. No fundo eu gostava de ser a Eva. Até de ser infeliz como ela, depressiva e terna. Ou eterna.
A vida da Eva é um corre-corre atrás de tudo e mais alguma coisa. Uma série de brincadeiras sérias que a tornaram uma mulher de sucesso, de vitórias, de concretização. Ser Educadora de Infância é extraordinário, mas por vezes sinto que me falta o sal e a pimenta que a Eva coloca em tudo o que faz. Sinto falta da adrenalina, dos choros compulsivos que a vejo fatalmente beijar, do medo que sente quando pensa no amanhã sem ou com o Afonso. Faz-me falta a descrença no amor que sei que o Bernardo sente por mim. Sinto falta da tristeza de que nunca provei, das raízes que se emaranham no coração da Eva e a sufocam mortal e poderosamente. Faz-me falta tudo o que nunca tive. Faz-me falta a vida da Eva.
Seria, com certeza, um abanão desconcertante, um experimentar de sensações que devem ser fascinantes. Um prazer mórbido e indomesticável. Algo sublime e indescritível.
Eu sei gerir bem o meu tempo, a Eva desperdiça o dela em momentos de doçura e em pedidos de compaixão, mas consegue fazer sempre tudo o que tinha planeado. Como se para ela o tempo duplicasse, apaixonado por podê-la vislumbrar mais horas.
O mundo gira à volta dela, as pessoas vivem em sua função. Teve sempre tudo e nunca deu valor a nada. Só ao Afonso.
Somos amigas desde pequenas e sempre vi a Eva chorar por tudo e por coisa nenhuma. Nunca tive pena dela. Às vezes tenho é pena de mim e de me ter deixado contagiar por ela. Não há nada a fazer. Quando a Eva entra na vida de alguém, sai quando lhe apetece e deixa o anfitrião eternamente à sua espera. Não há mesmo nada a fazer. Nada. Um dia ouvi o Francisco, amigo da Eva, dizer que ela é viciante. E eu concordo plenamente. O Francisco é um filósofo cheio de teorias pragmáticas e sensacionais que tal como eu foi corroído pela amizade inocente e malévola dela.
Eu sou feliz. Juro que sou. Mas a Eva é mais feliz na sua infelicidade que eu. Tem um amor não correspondido, trabalho incessante e desgastante, e é assolada por crises existenciais a todo o momento. É, talvez seja melhor eu continuar a amar a minha vidinha ensebada, sonsa e insossa que me entedia e omite, que vivenciar os sentimentos rubros e arábicos da Eva. Por melhor e mais flamejantes que eles sejam.