"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." [M.S.T.]

21.7.09

8.
Eva querida, custa-me pouco dizer-te que estás profundamente enganada. Eu sei amar. Todos sabemos. De formas diferentes e coisas diferentes.
Eu amo a Vida! Na sua essência, na sua pureza, na ingenuidade suprema de novidade. Amo o Mundo que existe sem porquês, a Natureza que ressoa num véu de seda concreto, amo o real na temporalidade da memória nunca extraviada.
Vou amando. Porque não sou egoísta como tu, que foste capaz de construir o teu universo à medida do Afonso.
O meu amor não é assim. Exclusivo, pormenorizado, inseguro, mascarado, passional e desalmado. Trata-se de um sentimento mais abrangente. Indefinido, afirmado, discreto e colonial. Eu sei que jamais entenderás os sentimentos que acreditas que não tenho. És imatura apesar de já teres tido todos os motivos para crescer. Serás eternamente uma bailarina sem palco e com talento. Eva, Eva, és tão importante para mim que por vezes imploro aos deuses para que te sintas fragilizada e voando até ao meu apartamento me faças tropeçar nas tuas desilusões patéticas e encantadoras.
Não sei ser-te indiferente. Não consigo. Nem sequer quero aprender. A tua vida dava um filme. A minha uma curta-metragem. Trazes às costas o peso de um amor inexplicável e sombrio, que te vai iluminando os caminhos de forma imprudente e abissal. Fazes amigos como quem cultiva um jardim de rosas e malmequeres. E depois abandona-los até à próxima crise existencial e brutal que te consome energias e te arrecada frustrações. Entras nas nossas vidas como se fosses um elixir e vicias-nos sem piedade. Desapareces no teu mundo e refugias-te por detrás de tulipas coloridas e apáticas. Contrarias a solidão que tanto temes com músicas celestiais e surdas.
Chegas até mim quando a tristeza é superior à alegria que irradias confusa. E choras incessantemente até que a insegurança se esgote.
És um anjo. O meu anjo. Eva. Nunca me abandones. Sem ti a sombra do nada voltará a pairar na vida que tanto amo e da qual me orgulho e desregulo sem pensar. Sem ti o frio das noites e do meu coração torna-se insuportável. Sem ti as estrelas esmagam-me e segregam choros violados. Sem ti a aspereza da minha boca sussurra e vagueia sem sono nem sonhos por jardins sombrios. Sem ti sou um amigo tresmalhado e derrotado. Sem ti sou nada. Sem ti nada sou.
 

1 comentário:

  1. podias ir escrevendo uns intervalos nesta história...

    já não passando por cá porque me aborreço...

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