"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." [M.S.T.]

10.9.09

12.
A maré reflui e leva consigo a significância progressiva do que sinto pela Eva.
A protecção e equação de amizade prometida já não valoram o riso eterno da princesa que morreu.
Partir para o Brasil foi assinar a morte psicológica que eu tantas vezes tentei evitar. Arrendou-me o coração e a vida e agora não tenho força nem vontade de procurar um novo inquilino.
Ontem jantámos juntos. Como forma de despedida. De último sorriso, de últimas lágrimas. O barulho do silêncio entrou pela casa dentro repetidamente. Tínhamos infinitas coisas para dizer e não conseguimos. Olhamo-nos tantas vezes e tantas vezes recordamos em surdina os momentos de um passado tão duro e tão bom. Tão doce e tão refugiado.
Restam as fotografias, a memória dos aplausos que lhe ofereci e dos gritos que nunca fui capaz de lhe dirigir, dos segredos que não lhe contei e do vício a que me aprisionei.
"Francisco, vou ter saudades tuas", como se fosse só isso que eu fosse ter dela. Saudades. O amor não se resume ao facto de sentir falta. Mas à certeza de que a distância não mudará em nada os sentimentos mais nobres e profundos.
A Eva matou-me. Ou pior, está a matar-me lentamente. Se ela era o ar que eu respiro, já tenho pouco. Se ela era a vida que eu procurava num caminho progressivo para a morte, então já sou cinzas, pó, nada. Se ela era a circunstância, a estrela, o sol, o mar, o arco-íris, então o mundo já não existe. Se eu era dela, ela já não é minha.
Não percebo, mas entendo. Ela precisa de encontrar novos caminhos, um rumo diferente. O rio mudou de curso. As estrelas do seu olhar cintilam noutro lugar. O vento sopra e afasta-a. Ela não volta mais. Nem para Portugal, nem para junto de mim, nem para o próprio coração.
Os sonhos afundam-se lentamente nesse oceano de serenidade que ela tem medo de conquistar. Do Pacífico, ao Índico, apenas o Atlântico nos separa, mas parece que galáxias inteiras nos barram e não a protegem.
Ela sabe que eu vou estar sempre aqui. Conheço-a mas nada a traz para o meu colo neste preciso momento. Nada. A presença mágica e amorosa é fundamental numa altura em que para mim tudo deixou de fazer sentido.
O tempo passa e tudo o que poderia ter mudado fica estático, suspenso à procura do seu sorriso, das suas lágrimas, do coração pintado por flores de cores infinitas.
Pela primeira vez na vida, olhando para os olhos profundos e imensos que guardo no cofre secreto da amizade e do amor, eu vejo uma Eva que acredita, que sofre mas que sabe que tem muito para aprender e para ensinar. Uma Eva mais decidida, menos dependente dos sentimentos dos outros. Uma Eva que eu ajudei a aprender a viver e que agora me deixa e me faz ser infeliz.
Eva, volta. Para o teu mundo, para os teus sonhos, para as circunstâncias apaixonantes que crias com os tons de rosa que trazes no teu coração. Volta! Não por mim, mas por ti.
 
 

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