"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." [M.S.T.]

13.7.09

1.
A Eva está apaixonada. Mais uma vez.
Não é que eu não acredite neste novo romance, mas eu sei onde é que isto vai parar. Já estou habituada ao amor utópico que ela acredita sentir. Ela ama demais. O Afonso. Não este Tomás com cara de príncipe do século vinte e um, nem o totó do Miguel que andava com ela para fazer ciúmes à ex-namorada, nem aquele tal de André que se achava o máximo e na realidade só tinha um palmo de cara e nem uma unha de inteligência, nem todos os outros com quem ela namorou para esquecer o bendito Afonso cujo nome jamais deve ser pronunciado diante dela. Se não, é depressão na certa.
A Eva sempre foi assim. Desde criança. Quando no Natal a família se juntava e ao nosso redor só parecia existir alegria ela ia para o quarto chorar. Mesmo que tivesse recebido o presente que desejara, mesmo que tivesse visto uma comédia hilariante daquelas que nos fazem rir ainda no dia seguinte. Parece surreal, mas ela nunca foi feliz. Só quando se apaixonou pelo Afonso, pelo menos é o que ela diz.
De todos os primos e primas que tenho ela sempre foi a minha preferida. Há sempre uma prima preferida e a Eva desde cedo foi a minha. Talvez por ser psicologicamente tão frágil. Talvez por sempre ter desejado ter uma irmã mais nova. Talvez por ser incrivelmente linda, meiga, inteligente e profissionalmente bem sucedida como se costuma dizer quando se vê alguém num Mercedes cabriolet, com roupas que fazem sobressair um corpo divinal e uma conta bancária daquelas com uma infinidade de zeros. Uma mulher de sonho, como diz o Guilherme. O meu namorado. Ou marido. Ou companheiro. Tanto faz. Ainda não percebi bem a diferença. Vivemos juntos há quatro anos e somos um casal feliz como suspira a Eva quando entra cá em casa à procura de um ombro onde possa afagar a alma e o coração, depois de por fim a uma relação e de entrar numa daquelas crises que podem durar horas, dias, meses e no caso do tal Cujo-Nome-Não-Se-Pode-Pronunciar nove anos. É de loucos. Por vezes, nem eu acredito como pode alguém amar um homem há nove anos e não lutar por ele, não fazer nada. Só chorar e esperar que ele volte. Se eu não a tivesse visto sofrer tanto pelo Afonso acharia que tudo não passa de um capricho como diz o Guilherme. Mas é muito mais que isso. Nove anos a sofrer… só quem é masoquista e a Eva, por vezes, parece.
A minha prima é mesmo muito louca. Pode ter tudo o que quer. Qualquer coisa. Desde a mais simples à mais extravagante e foi logo gostar do Afonso. Não é que ele seja mau rapaz. Muito pelo contrário. Mas também não é nenhum santo. Somos amigos e ele e o Guilherme adoram-se. Jogam ténis os dois, trabalham na mesma empresa e jantamos tantas vezes juntos que, às vezes, me passo com a quantidade de miúdas diferentes que ele leva e apresenta como “uma amiga lá do escritório”. Está-se mesmo a ver que elas não sabem que por trás da carinha de anjo de olhos verdes está um lobo mau prontinho para atacar. E a Sofia em casa ou no cinema com aquelas amigas dela, com ar de gente importante, que vivem às custas dos maridos e que estão habituadas apenas a trabalhar os olhos no centro comercial.
– Não é que ele faça por mal – defende-o o Guilherme. Os homens são mesmo todos iguais! Encobrem os pecados uns dos outros e acham que é normal usar as mulheres de acordo com as suas conveniências e desejos.
– Não Gui, faz por bem claro! Como é que eu não imaginei isso antes!
– Não sejas irónica Maria Eduarda. A culpa é de uma miúda que ele conheceu quando tinha dezoito anos. Ele nunca me explicou a história, mas sei que foi a única mulher que ele amou.
Pobre Guilherme, acredita em cada coisa. O Afonso apaixonado de verdade! Daqui a pouco diz-me que na vida passada foi o rei Artur e que o amigo era um dos cavaleiros da tábua redonda!
O telemóvel está a tocar. É a Eva. Aposto a minha escultura nova, que segundo o Guilherme é das mais bonitas que fiz até hoje, que ela me vai dizer que finalmente encontrou o homem certo, que o Tomás é extraordinário, que já nem imagina a vida dela sem ele.
– Olá Eduarda! – Eu não disse? A voz dela não me engana! Está momentaneamente feliz!
– Olá querida! Tá tudo bem contigo? E com o Tomás?
– Estamos óptimos. Tenho uma novidade fantástica e quero que sejas a primeira pessoas a saber.
Não acredito. A coisa é mais séria do que eu imaginei. Ainda me vai dizer que resolveu casar-se…
– Fui convidada para ser directora de uma grande empresa de cosmética. E o melhor… a sede é no Brasil!! Não sei se tás a ver bem? Um salário astronómico, um país maravilhoso e a distância… Longe de Portugal vou conseguir aquela tal felicidade absoluta que eu procuro há anos… desde sempre!
– Mas e então o Tomás, os teus amigos, eu?
– Eu tou feliz Eduarda! Não é isso o mais importante?
Ela tem razão. O que interessa é a felicidade dela. Mas quem é que a vai consolar quando tiver um pesadelo com o Afonso e lhe apetecer bater à porta de alguém às quatro da manhã, de pijama e com os olhos tão inchados que até dá dó? Quem é que vai ter paciência para a ouvir contar, com um entusiasmo quente e doce, que encontrou o amor inesperadamente numa daquelas ruas pelas quais ela adora passear “para estar perto da realidade, porque os toxicodependentes e as mulheres da vida existem”?
Ela não regula lá muito bem. Cada vez tenho mais certeza disso. Agora vai para o Brasil. Para longe de tudo. De todos. Do único suporte afectivo sólido que ela conseguiu construir.
Nunca a imaginei afastada de mim. É, a Eva dá um sabor de loucura e de ternura à minha vida. Agora já não vou ter ninguém de quem cuidar carinhosamente e fazer sermões prolongados e docemente cansativos. Ela precisa de sentir que alguém está aqui para a ajudar, sempre. As preocupações com ela vão continuar, é certo, mas a imensas milhas de distância. Do outro lado do oceano. Só espero que esta nova etapa a invada de tranquilidade e alegria, que é o que ela mais precisa. Que é o que todos nós precisamos. Não digo de amor porque isso a Eva tem e dá de sobra. Dará sempre. Mesmo que sofra. Mesmo que a façam sofrer. Ela ama mais o amor que os objectos, que as pessoas. Só com o Afonso é que as coisas são diferentes. Nunca percebi de onde surgiu aquele sentimento infinito que ela diz sentir por ele. Mas é sincero. Pelo menos é que eu acho.
Porque é que amamos tanto quem não nos respeita nem sequer gosta de nós como queríamos que gostasse?
Com o Guilherme eu não tenho esse tipo de problemas. Não foi amor à primeira vista, porque não acredito nesse tipo de coisas como a Eva, mas talvez ao primeiro beijo, ao primeiro encontro, depois de termos conversado muito e nos conhecido profundamente. Completamo-nos. Ele é a minha metade da laranja, a tal alma gémea que tão raramente temos a sorte de encontrar. Mas eu não dependo dele. Sinto-me livre. Sempre gostei de ser independente. E enquanto este amor durar vou acreditar que é eterno. Porque sei que nada dura para sempre. Nada. Por isso, vivo sempre o agora, o hoje, para que se perpetue para sempre no amanhã através do meu coração. Através das recordações. Boas e más.


4 comentários:

  1. mas que bonito =') gostei tanto, mas tanto. gostei, principalmente, desta frase: "Porque é que amamos tanto quem não nos respeita nem sequer gosta de nós como queríamos que gostasse?" perfect! a partir de agora vou sempre seguir o teu blog. beijinho

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  2. Adorei mesmo a história
    com um certo fundo de realidade ^^
    ja acompanho o blog há algum tempo e cada vez tenho mais a certeza de que vale a pena continuar a seguir
    beijinho*

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