"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." [M.S.T.]

14.7.09

2.
Estou farto da Sofia. Já não a suporto. Só pensa em moda, em saídas com as amigas, em festas, em jantares. Não sei onde é que eu estava com a cabeça ao assumir este namoro. Bem, sempre é melhor que a outra doida que se apoderou do meu coração quando eu era um pós-adolescente confuso e rebelde que achava, e continuo a achar, que o amor é uma ilusão. Isso sim teria sido um erro. A Sofia, pelo menos, não me pede amor, só dinheiro e companhia. Podia ser pior. Mas agora, está cada vez mais irritante. A voz dela incomoda-me, a maneira de ser também. As mulheres são mesmo terríveis. Ou pensam em paixões ou em viagens. Ou querem um homem ou um anel. Enquanto a Sofia me for apenas pedindo casacos, malas, colares, perfumes e todas aqueles bens materiais supérfluos que a fazem ser tão feliz, aguento-a.
A "borboleta" não era assim. Ela amava-me puramente. Fosse eu rico, pobre, aleijado, maltrapilho. Mas o que é que me deu para pensar nela? E ainda por cima chamei-a de BORBOLETA… Não estou bem. Depois de nove anos ainda continuo a trata-la como antigamente. Noutro dia encontrei-a. Estava maravilhosa. Com um jeans justinhos da D&G e uma blusa de seda preta discretamente decotada que lhe ficava a matar. E claro, os sapatos... dourados a condizer com a mala. Chiquíssima. Uma vez, ouvi a Maria Eduarda comentar que nunca tinha conhecido ninguém que gostasse tanto de sapatos como a prima. Não é que me tenha interessado a conversa, mas por vezes é bom escutar um pouco as mulheres para ver se entendemos melhor o seu mundo, ou se ficamos ainda mais confusos. Ia a casa do Gui e da Eduarda. Estava à espera do elevador e ela saiu de dentro dele. Como se fosse um presente a sair de uma caixa gigante delicadamente embrulhada. E sorriu. Com os olhos, com a boca, com o coração. Nunca vi um sorriso tão mágico em toda a minha vida. E disse-me "olá!" com aquela vez melódica que parece ter saído de uma caixinha de música de embalar. Ou melhor, de encantar. Mas ela já não deve pensar em mim. Ouvi a Eduarda dizer, por acaso claro, que a Eva namorava com o Tomás Albuquerque, um jornalista cheio de fama, sucesso e dinheiro. E ela parecia-me realmente feliz quando saiu do elevador e entrou de novo no meu coração. Mas o que é que eu estou para aqui a dizer? A Eva nem mulher nenhuma conseguirão desarrumar a minha vida. Estou bem assim. Muito bem.
Depois de ela ter desaparecido pela porta do prédio, a deslizar como se fosse um cisne e o chão um bonito e transparente lago azul, entrei no elevador. O perfume dela estava deliciosamente concentrado no elevador e por momentos comecei a sonhar. Ela dançava num palco gigantesco, vestida de bailarina. E voava. Bem alto. Muito alto. Eu estava na assistência, sozinho, e, de repente, sentia uma força que me sugava, que me levava até ela. E comecei a voar ao seu lado. Ao lado da Eva. Ao lado da única miúda que eu amei em toda a minha vida. Mas que perdi. Que afastei, que magoei. Tudo porque não tenho medo de arriscar na Bolsa mas tive um receio tremendo de amar. Perdi a Eva tinha eu dezoito anos. Nunca tive coragem de dizer a ninguém que estava apaixonado por ela. Os meus amigos achavam-na uma menina mimada. Diziam isso porque nunca conheceram a Eva que eu tive o prazer ou o azar de descobrir. Nem ao Gui eu contei.
Quero que a Eva continue afogada no meu sangue, dentro de mim e que pare de me consumir a alma, para não me destruir novamente o coração.
Eu e o Guilherme nunca falamos da Eva. Só ele da Eduarda e eu da Sofia e dos meus affairs. Falar da Eva deve-me fazer tão mal como pensar nela. E o pior é que penso nela todas as noites, a quase todas as horas. Mas é um segredo que eu pretendo guardar só para mim. Apenas dentro de mim ela continua a existir e é assim que deve ser.
Depois de tocar à campainha e de entrar em casa do casal mais perfeito que conheço, a Maria Eduarda perguntou-me num tom de voz preocupado se eu me tinha cruzado com a Eva. Depois de ter respondido afirmativamente ela pegou no telemóvel e afastou-se com um ar ainda mais estranho. Não percebi porque, mas também não quis perguntar. A Eva faz-me mal.
E acabaram os pensamentos nela assim que o Gui me começou a falar de um novo projecto da empresa. O trabalho é um bom escape. O único que eu encontrei para esquecer a minha Borboleta.

3 comentários:

  1. Infelizmente, ainda existem casos destes na vida real.. ainda ficamos presos em amores que duram uma vida inteira em que apenas um cruzar de olhares desmorona o nosso mundo mas que não admitimos a ninguem como nos deitamos por terra quando nos cruzamos com esses amores.

    Esses amores duram 9anos ou mais, duram uma vida e sempre com a mesma intensidade com que amamos nos magoa!

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  2. pois é, amores que duram demasiado quando já nem sequer "existem"... infelizmente vejo-o todos os dias. CONTINUAAAA :D beijinho

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