"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." [M.S.T.]

18.7.09

6.
Namoro com uma super mulher. Super miúda, melhor dizendo. Nunca pensei que pudesse encontrar uma mulher com o sorriso meigo da Julia Roberts, o cabelo esvoaçante da Catherine Zeta-Jones, os olhos perfumados da Katie Blanch, o corpo encantado da Marilyn Monroe e a sensualidade surreal da Angelina Jolie. Tudo para mim. Não é que ache que não mereço, mas por vezes custa-me a acreditar que a Eva é minha namorada.
Os meus amigos invejam-me e até eu tenho ciúmes de mim. A imprensa explora o assunto muito além dos limites. "Tomás Albuquerque encontrou o Amor". "Jovem mistério ao lado de Tomás". "Jornalista vive paixão tórrida".
Sou o homem do ano. A Eva causou um impacto gigantesco. Tenho o mundo e a mulher mais atraente que alguma vez conheci aos meus pés. Fama, dinheiro, beleza, sucesso. Tudo gira à minha volta protegendo-me do fulgor desconcertante da cruel realidade e pobreza. Vivo num universo de sonho que criei para esquecer o passado. A dor de filho rejeitado e alheado. Uma existência perigosa e negada. Ao ponto de calar a fúria da morte da minha mãe.
Em toda a minha vida, só conheci o meu pai, que não me tratou mal. Nem bem. Era-lhe indiferente. Desapareceu quando eu tinha cinco anos e nunca mais tive notícias dele.
Vivi num orfanato. Estudei. Lutei pelo meu futuro e fui um brilhante aluno. Ou um aluno brilhante. Formei-me em Ciências da Comunicação e toda a gente me vê como um homem feliz. Realizado.
Cresci sem afecto. Nunca senti carinho por ninguém. Só agora pela Eva.
O passado faz-me sangrar. Muitíssimo. É uma discreta aflição transparente na sua opacidade que eu quero esquecer para viver serenamente.
Não tenho sossego. Sou um homem de aparências, de estratégias, que jamais perdoará a infame infância que lhe foi destinada.
Nenhuma criança tem o direito de sofrer tanto. De morrer espiritualmente na chuva das lágrimas que derramou sozinho.
Tenho a Eva agora. Para sempre. É a mulher da minha vida. A mulher da vida de qualquer homem. Mas foi a mim que ela escolheu para percorrer as passerelles imaginárias em que desfila fervente. Batem-lhe palmas como se fosse uma princesa russa de alma confessa e aromática. Esta mulher é só minha.
Calem os espíritos e cessem os pensamentos. Não sonhem com o que não podem ter. A ignorância de que vos pautais não seduzirá nunca a Eva. Ela gosta de homens inteligentes e cultos, que não têm medo de balbuciar de madrugada a palavra Amo-te.
A Eva nunca me irá deixar. Ela ama-me. Só a mim. Tenho a certeza disso. Eu vou ser o pai dos filhos dela. Ancorou no meu mundo e em momento algum zarpará.
Os meus amigos dizem que estou a ficar obcecado. Mas é mentira. Tenho os objectivos bem definidos. Só isso. Alimento somente este amor compulsivo pela Eva. Preciso de gerir bem a fragilidade da minha vida impertinente. Sou eu e não sou. Sinto e não acredito. Torno-me alvorado e homenageio a Eva em catadupa. Como se ela me regesse. Como se a promiscuidade do meu ser combatesse os sentidos iludidos de que me vou cercando.
Estou louco. De amor pela Eva. Incendiou a ingenuidade cruel que me compunha, numa perversa brincadeira de paixões.
Venero-a.
Rainha guerreira de espada cor de sangue que bailas no meu pensamento, desce desse pedestal onde me intimidas e mata-me de paixão.
Aceito morrer em tuas sublimes e cruéis mãos. Não me poupes a vida, não. Mata-me por vaidade não por piedade. Derrama o meu sangue e alimenta a tua alma insana. Desfia o meu corpo pulsante e apedreja os meus olhos que te alcançam e inspiram. Faz o que tem de ser feito, moribunda que circundas e lapidas os órgãos que me pertencem. Sou teu até ao fim.
Gamaste-me o coração e só tenho para te oferecer a rebeldia e loucura dos dias que me faltam viver. Dos dias que me faltam morrer.
Eva, porque me possuis e assassinas tão devagar?

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